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SABIAM DISSO?
ANTES DAS FAZENDAS DE CAFEZAIS, JÁ EXISTIA A PECUÁRIA!
Era normal ver pelas estradas gigantescas boiadas, de perder de vista de tão longas e com milhares de cabeças de gado
Publicado em 19/06/2024 às 19:55 Italo
ANTES DAS FAZENDAS DE CAFEZAIS, JÁ EXISTIA A PECUÁRIA!

Embora Umuarama esteja próxima de completar 69 anos de sua inauguração como povoado, é bem verdade que a história deste vasto território noroestino remonta ao início do século passado. Lá pelos idos de 1908, movimentos colonizatórios começavam a fixar raízes em vários pontos. No começo, as levas de desbravadores avançavam por terra, explorando campos e florestas.

Depois, atraídos pelo sucesso econômico de Londrina, Maringá e Guarapuava, começaram a aparecer investidores endinheirados vindos de São Paulo e Minas Gerais, ávidos em comprar terras devolutas baratas. Estes, respirando ares mais evoluídos e com conhecimentos mais civilizados de transportes, preferiam inspecionar as grandes áreas por via aérea, a bordo de “teco-tecos”, aqueles pequenos aviões considerados modernos e de fácil pouso e decolagem entre as raras “cidades grandes” do Norte do Paraná. Eram os “taxis aéreos” ou “avião de fazendeiro”, como diziam os colonos de poucas letras. Nessas viagens, os “coronéis” observavam as matas, pensando no que iriam faturar com a extração da madeira, e nos latifúndios agrícolas, principalmente a cafeicultura, que poderiam formar depois de dizimarem a mata virgem.

Lá do alto, porém, não podiam radiografar a malha completa de trilhas e picadões que existia debaixo dos frondosos e fechados perobais e outras espécies de árvores nativas.

Nem imaginavam que, se fincassem raízes por aqui, não estariam sós na imensidão verde. Só os mateiros experientes e matreiros, além dos picaretas espertos que vendiam terras, é que conheciam como as palmas das mãos o labirinto esculpido nas entranhas da floresta pelos índios, de várias tribos, e pelos desbravadores e posseiros que haviam chegado tempos antes.

É através dessas teias de caminhos, acidentados e tortuosos, rasgados pelos cascos de animais e pelos facões dos aventureiros, que se espalhavam de um lado para outro e em todas as direções é que se locomovia aquela gente que começava a abrir os clarões para erguer suas moradias e plantar o sustento de cada dia.

Os índios, entre os quais os Xetá, que nós aqui de Umuarama estamos familiarizados a citar a todo momento, usavam dessas trilhas para sair à procura de animais selvagens para caçar e de rios para pescar. O mesmo faziam os primeiros homens brancos, de todos os sotaques brasileiros, principalmente os mineiros e os paulistas.

Mas não existiam apenas as trilhas e picadões, como supõem a vã filosofia e alguns aprendizes de historiadores. Bem lá no início do século 20 já havia um picadão bem largo e extenso, advindo lá das plagas de Guarapuava até Campo Mourão, e depois seguindo pela floresta afora até o Rio Paraná, fazendo conexão com o sul do Mato Grosso, quando este ainda não havia sido desmembrado em dois estados.

É por essa artéria, imensa se comparada com as picadas e veredas existentes, que transitavam gigantescas boiadas, de perder de vista de tão longas e com milhares de cabeças de gado vacum e cavalar seguindo os sons dos berrantes dos bravos peões. De tão grandes, faziam verdadeiro estrondo e provocavam imensas colunas de poeira pelo percurso.

Essa artéria a que me refiro, chamada primeiramente de “Picadão”, depois foi batizada de Estrada Boiadeira, justamente por ela ser a única via de locomoção da pecuária precursora deste imenso Noroeste, então chamado de Norte Novíssimo pelos cartógrafos. Na década de 1950, a politicalha começou a iludir os criadores e os moradores de todas as cidadezinhas que foram surgindo às margens de seu percurso com a balela do asfalto. Preciso repetir que até hoje a lendária e folclórica obra de pavimentação ainda não saiu???

É por esses caminhos que as boiadas e manadas de cavalos seguiam até os vários portos situados à beira do rio Paraná. Ali, eram embarcados em balsas para fazer a travessia do colosso das águas paranaenses. Para cruzar os rios e riachos menores, os animais eram forçados a nadar e enfrentar as correntezas. Era comum muitos seguirem rios abaixo boiando...

A necessidade de um transporte mais seguro nesses afluentes menores que o Paranazão motivou a instalação de balsas nos rios Ivaí e Piquirí, uma fonte que enriqueceu durante décadas muitos donos desses flutuantes.

O negócio para eles foi, literalmente, por água abaixo quando pontes foram construídas...

É relevante registrar que também era usado o traçado da decantada estrada de ferro (aquela que parou em Cianorte) para viajar pelo chão adentro rumo à centenária Guaíra, na divisa com o Paraguai. Por ali seguiam as mudanças de colonos e criações de pecuaristas que estavam se instalando em outras áreas nem muito distantes da Gleba Cruzeiro (na qual está inserida Umuarama).

Conforme iam sendo abertas fazendas e surgindo cidades, foram sendo construídas pistas improvisadas para os “teco-tecos”, procurando facilitar o contato com a “civilização”, digo, os centros populacionais maiores, como Maringá e Londrina, e bem mais longe, como o interior e capital de São Paulo. Era o recurso mais viável e inteligente para atravessar grandes distâncias com maior rapidez, principalmente quando se tratava de trazer medicamentos e instrumentos de topografia e agrimensura para as colonizadoras. E, claro, um meio de viagem mais cômoda e sofisticada para os fazendeiros, a elite da época.

Foi por essas trilhas também que caminhou durante longo tempo a evangelização: padres católicos se locomoviam visitando as primeiras colônias de agricultores e até mesmo as aldeias de índios, exercendo a catequização. Numa entrevista que fiz com frei Estevão Maria, o primeiro padre capuchinho de Umuarama, numa visita que fez à cidade na década de 1970, ele me contou que, depois de tanto bater pernas pelas trilhas, começou a percorrer a área regional em “teco-tecos”, que eram gentilmente cedidos ao religioso pelos grandes fazendeiros. Assim ele mantinha contatos mais freqüentes com Cruzeiro do Oeste, Xambrê, Iporã et adjacências... Taí um padre pop voador!

Vale citar ainda que nesse emaranhado de trilhas, havia espaços amplos no meio da mata, à beira de córregos, que serviam como pontos de parada para os animais e tropeiros, que acampavam para o merecido descanso, deles e dos sofridos rebanhos. Afinal, depois de tropear um dia inteiro, nada como sombra e água fresca, que ninguém é de ferro...

À medida que iam surgindo novas propriedades, crescia o complicado mapa de trilhas, por conta dos colonos que abriam caminhos para ter contatos com os vizinhos sitiantes ou fazendeiros, afinal, num ciclo tão primitivo como aquele havia casos de urgência em que era obrigatório recorrer ao socorro de companheiros da mesma sina, afinal, todos, em algum momento, passariam por situações alarmantes, como no caso de doenças, e a solidariedade era um valor cultuado entre aquela gente trabalhadora e vulnerável às agruras de um mundo rude como foi no passado este grande sertão.

Contavam os velhos pioneiros de sofridas lembranças dessas trilhas que, em alguns pontos, onde haviam propriedades rurais já abertas, os donos das terras instalavam porteiras interrompendo o caminho dos passantes, estivessem eles a pé, a cavalo ou de carroças. Havia um barraco, feito de tábuas de palmito, onde ficavam de sentinelas capangas para cobrar o “pedágio”. Diziam que esses jagunços andavam armados, com 38tões e espingardas carregadas até a boca. Para transpor a cancela, só desembolsando a grana ou então dar a meia volta e sumir...

E ninguém ousava desafiar aqueles indivíduos, de semblantes violentos e transpirando gestos de ignorância. Vejam só, o pedágio no Paraná já imperava em priscas eras do passado...

No ano 1953, quando a Companhia Melhoramentos Norte do Paraná anunciou que começaria a desbravar o território onde construiria Umuarama, é que a colonizadora começou a alargar a velha trilha que sulcava o traçado da estrada de ferro (oooooops!, de novo ela...) entre Maringá e Guaíra, por onde tantos cavaleiros, mateiros, picaretas, colonos e outros precursores haviam ferido seus pés de dolorosas bolhas de tanto caminhar e muitos animais de montaria e de carga haviam perecido nesse sendeiro que parecia um calvário para todos os andantes.

Legiões de trabalhadores, armados de enxadas, seguindo atrás de máquinas pesadas, como tratores de esteiras e depois motoniveladoras, começaram a abrir a primeira estrada de rodagem no chão batido. Mas, aí começava uma outra aventura que, depois de tanto recordar as veredas do passado, cansei e vou deixar para contar em nosso encontro no próximo domingo. Até lá. (ITALO FÁBIO CASCIOLA)

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Rebanho de bovinos levanta a poeira na lendária Estrada Boiadeira, na década de 1950. (Imagem Face Estrada Boiadeira)

Antiga cena comum entre os pioneiros: boiada cruza mansamente uma das pequenas cidades na época da colonização. (Fotos de autores anônimos)

Ao contrário do que a maioria imagina, a pecuária já existia aqui no Noroeste bem antes da cafeicultura dominar a região.

Boiadeiros trazendo rebanho de bovinos do Mato Grosso do Sul para esta região Noroeste paranaense.

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