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26 DE JUNHO DE 1955
A banda tocou ‘Peixe Vivo’
e os desbravadores dançaram felizes no meio da floresta
Publicado em 24/10/2017 às 21:00 Ítalo
A banda tocou ‘Peixe Vivo’

Nem mesmo o rigor do inverno daquele ano mudaria os destinos do dia 26 de junho de 1955, já mais de meio século distante de nós, abençoado para ser um domingo feliz.

A colméia de gente que esperava aquela data com tanto entusiasmo, preparava uma confraternização desde o sábado e havia amanhecido trabalhando antes mesmo do sol nascer.

O espaço para aquela celebração estava ajeitado, numa das pontas do aeroporto, que também estava pronto, com a pista de terra batida lisinha como uma mesa, segura para a aterrissagem de ilustres convidados que viriam de fora para o encontro festivo. Ali, já funcionava a lendária Pensão Mineira, quando tudo aqui era a Gleba Cruzeiro, mas já se pensava em instalar uma cidadela.

Churrasqueiros, músicos, voluntários à disposição para o que fosse preciso fazer para ajudar. Ainda era madrugada e o fogo já havia sido aceso nas churrasqueiras improvisadas sobre pilhas de pedras e brasas ardendo em valetas, exibindo apetitosas costelas de boi, iguaria rara para quem vivia literalmente no meio do mato e vivia se alimentando de aves e animais silvestres. No ar, pairava aquele aroma de carnes assando, abrindo o apetite e emitindo uma fumaça branca que subia por entre as copas das gigantescas árvores...

A exótica festa de inauguração de Umuarama fora planejada desde o início de junho, quando a diretoria da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná sacramentou o domingo 26 de junho como a data oficial do nascimento de Umuarama.

Foi organizada pelos funcionários da colonizadora, que prepararam uma recepção para os chefes que vieram da matriz, em São Paulo, e das filiais de Cianorte e Maringá, onde a Cia. Melhoramentos também era fundadora daquelas cidades e tinha escritórios e executivos. Chegaram uns cinqüenta convidados em vários “teco-tecos”, inclusive o comandante da colonizadora, Hermann Moraes de Barros. Outros vieram de jipes pela estrada de recém-aberta na terra e entre a mata virgem...

Depois de tantas solenidades que marcaram a manhã daquele domingo, Hermann Moraes de Barros e sua comitiva regressaram ao ponto de partida, a Colônia Mineira, próximo ao aeroporto, onde estava tudo pronto a esperá-los aquela suculenta churrascada no meio da mata.

Isso, mesmo: no meio da mata, sob a majestosa sombra de centenárias perobas e outras árvores nativas, apinhoadas de macacos saltitantes espantados e de pássaros de todo tipo de espécies que voavam de galho em galho surpresos com tamanho pandemônio promovido pelo numeroso grupo de festeiros.

Os cidadãos mais eufóricos, correram para a pista do aeroporto e fizeram uma verdadeira bateria de tiros de rojões, com explosões ecoando pela floresta afora. Tremenda folia antes nunca vista pela fauna...

Essa barulhenta movimentação começou horas antes, com os primeiros raios do sol, quando chegaram os churrasqueiros para acender as fogueiras e preparar as carnes para o almoço.

No dia anterior, carpinteiros haviam montado longas mesas, feitas com a própria madeira do lugar, onde se acomodariam os colonizadores que participariam desse grande dia como marco da abertura de uma nova fronteira agrícola.

Empilhados por todos os lados, centenas de engradados de bebidas, principalmente de pinga de alambique. Sacos e mais sacos de carvão. E um grande estoque de mantimentos e apetrechos necessários para fazer a festança.

De fora trouxeram carnes de boi, porco e aves. Contavam os mais antigos moradores, que haviam participado daquele memorável acontecimento, que comida e bebida não faltou. E nem sobrou. Além de muita alegria, é claro, afinal sabiam todos eles que estavam participando de um evento histórico.

Os músicos, a maioria de boates de Londrina e outros empregados da própria colonizadora que sabiam tocar (ou cantar) algum instrumento, formaram a banda que ficou encarregada de reger o repertório musical durante a tarde inteira.

A banda abriu a festa em grande estilo: como ali era a Colônia Mineira e a maioria dos festeiros eram oriundos das Minas Gerais, a primeira música seria um clássico do cancioneiro mineiro cujo autor até hoje é desconhecido: “Peixe Vivo”.

Naquele período ela estava na boca do povo de Norte a Sul do Brasil, pois Juscelino Kubitschek, então o mais ilustre personagem da história política das Minas Gerais, a transformara no hino de sua campanha à presidência da República.

E a legião de mineiros, que predominava absoluta na celebração da fundação de Umuarama, simplesmente a-do-ra-va JK! Então, foi aquele auê quando tocou “Peixe Vivo”, acompanhada em côro pelos festeiros presentes ao lauto festim. Alguns mais eufóricos pediram bis e foram atendidos.

Era preciso homenagear também os nordestinos, embora em menor número também presentes entre a equipe precursora da colonizadora. E os músicos não economizaram no repertório alegrando a todos com xotes, forrós, xaxados, frevos e baiões...

O banquete durou horas. Toda a gente se fartou com a melhor carne, inclusive alguns haviam caçado antas, pacas, capivaras e porcos do mato, que também viraram churrasco e pratos exóticos entre os comensais.

Como era um dia junino gelado, a bebida jorrou em abundância: cachaça, cerveja e conhaque foram servidos à solta para a maioria. Para a diretoria da colonizadora os donos da festa, claro, haviam litros e mais litros de “scotch” da melhor procedência (que, vale registro, eles mesmos trouxeram no bagageiro de um daqueles pequenos aviões).

Para as damas, que eram em minoria, esposas de funcionários chefes de departamentos da Cia. Melhoramentos e de moradores da Colônia Mineira, foram reservados ponche e tubaínas.

Depois do lauto almoço, na festa em clima cada vez mais animado, não poderia faltar a dança. E todo mundo foi bailar entre os troncos das árvores, trocando passos por cima de folhas secas. A euforia era tanta que aquela “pista” parecia ser um aconchegante tapete de nuvens, por onde flutuavam os casais rodopiando como se estivessem em meio aos jardins de Versailles...

O rega-bofe ameaçava terminar quando estava escurecendo e a lua começava a apontar no céu escuro, mesmo assim, alguns mais embalados teimavam em continuar.

Mas foram mudando de opinião ao lembrar de um alerta que todos os desbravadores tinham que obedecer: existiam onças e outros animais selvagens perigosos que saíam pela floresta afora caçando o sustento de cada dia. E ninguém, mesmo ‘turbinado’ na pinga e cerveja consumida, gostaria de arriscar a própria vida ficando naquela imensa mata...

Mesmo assim, a comemoração alongou-se por mais algumas horas, graças a fogueiras acesas que, além de esquentar aquela noite fria de inverno (era junho e o frio era de matar antigamente!), servia para afugentar momentaneamente felinos, javalis e bichos peçonhentos.

Aquele domingo havia nascido mesmo feito especialmente para uma festa de arromba, como a própria data exigia. A fuzarca estava, a essas alturas, animadíssima e prometia não ter hora para acabar. Mas o frio apertou e, mesmo a contragosto, a festa acabou...

Não era um baile de salão, mas todos fizeram questão de comparecer bem vestidos: camisas brancas mangas longas, uns de chapéus, outros de quepes de “chofer”, cada um à sua maneira. Mas eram unânimes na animação de participar da primeira grande festa realizada em Umuarama.!

Veja que cena maravilhosa: no meio da mata, a banda “esquenta” os convidados tocando clássicos populares, começando com “Peixe Vivo”, uma das mais belas canções mineiras...

Esta outra imagem é ainda mais fantástica: exibindo sorrisos de alegria, os casais dançam sobre as folhas secas e entre troncos de árvores centenárias... Até dois garotinhos entram no ritmo e fazem pose para este retrato épico. (Fotos exclusivas de Hermann Moraes de Barros/CMNP)

 

‘Peixe Vivo’

(Autor desconhecido)

Como pode um peixe vivo

Viver fora da água fria?

Como pode um peixe vivo

Viver fora da água fria?

 

Como poderei viver

Como poderei viver

Sem a tua, sem a tua

Sem a tua companhia

 

Os pastores desta aldeia

Já me fazem zombaria

Os pastores desta aldeia

Já me fazem zombaria

 

Por me verem assim chorando

Por me verem assim chorando

Sem a tua, sem a tua

Sem a tua companhia

 

Água fria fica quente

Água quente fica fria

Mas eu fico sempre só

Mas eu fico sempre só

Sem a tua, sem a tua

Sem a tua companhia

 

Água mole em pedra dura

Tanto bate até que fura

Água mole em pedra dura

Tanto bate até que fura

Esta vida não se atura

Esta vida não se atura

Sem a tua, sem a tua

Sem a tua companhia.

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